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26 de setembro de 2012

My name is Ana, ANA CLARA


Sentada em frente ao notebook off-line, como no navio, é que volto a escrever para este blog. Não sou blogueira mas sou escritora, fotógrafa, jornalista e professora de inglês, exatamente nesta ordem cronológica que meu timeline no facebook não explica. Escrevo por hábito, por terapia e por natureza – mantenho manuscritos há anos e este blog foi mais um dos meus diários especiais. Depois que desembarquei (sim, a vida fica dividida em antes e depois do navio), não entendia muito bem o porquê de um blog, pra que servia e se de alguma coisa ainda ia servir. Pois no início de 2012 o Costa Concordia naufragou e eu entendi que o blog ocupava um lugar especial, e fiquei feliz de poder me ler e completar as estórias na minha cabeça.

Estou explicando essas pequenices porque os blogueiros costumam ser super conectados e eu nem adiciono pessoas que não conheci pessoalmente no meu FB. Também recebi pequenas cobranças de respostas e de informações, sem falar nos “amigos dos meus amigos” que comentam que eu escrevo mal. Mal ou bem, eu escrevo, e é o exercício que faz de mim uma escritora. Eu nunca decorei as regras dos porquês nem comprei um livro sobre a nova língua portuguesa (ainda), mas não deixo de escrever nem de viver pra escrever as coisas que vejo. Por isso não passo muito tempo na internet, a minha busca é interior. E aos insatisfeitos, que se retirem - já que eu não preciso ser lida para continuar me exercitando, eu escrevo um livro por ano. Ah, nunca reli nem editei nenhum texto. Deve ser por isso que eles estão cheios de vírgulas e aventuras, eu não tenho tempo a perder.

Disseram que eu voltei americanizada... É curioso como algumas pessoas ACHAM que me conhecem porque eu dividi um pedacinho da minha vida pra todo mundo ver. Elas tendem ao péssimo hábito do julgamento, geralmente negativo, já que eu não aceitei ser “amiga” do FB delas e eu também não atendo a elas prontamente porque eu tenho trabalho, casa, família e amigos bem reais. Continuo aberta a este mundo (inclusive o virtual) e a quem lhe parecer útil, podemos trocar ideias por aqui mesmo, por e-mail e até por Skype... mas eu não tenho necessidade de ter um monte de carinhas desconhecidas no meu FB, NÃO É POR LÁ QUE MINHA VIDA SOCIAL ACONTECE.

Estou cheinha de coisas pra contar, penso no que aprendi no navio e nos amigos lindos que fiz por lá todos os dias. Tenho opiniões muito bem formadas sobre as condições de trabalho e outras coisas nem tão boas, mas de forma alguma carrego a bandeira do contra. Minha bandeira é ESCOLHA. Eu escolhi e se esse blog ajudar alguém na sua escolha, vou estar feliz por qualquer decisão tomada. Eu teria um orgasmo cibernético se os ex-tripulantes do Concordia (e do mundo!) me mandassem textos, fotos e vídeos pra gente poder dividir tudo com quem ainda não foi.

Todas as ferramentas podem ser usadas para diferentes fins, eu quero muito que o blog faça bem pra alguém, que ajude em alguma coisa. Afinal, escrever dentro e publicar fora do navio com periodicidade me deu trabalho e é isso que garante a verdade dos fatos, essa falta de edição e de papas na língua (e eu economizei bastante no palavrão em respeito a minha mãe, que ainda era uma lady viva). Mas eu não falo mais palavrão (eeeeeeee) e evito palavras e pensamentos negativos. Porém, adoro meu cérebro e sou incapaz de tapar o sol com a peneira. E como já dizia minha mãe, Terezinha Tellini: “o mundo não está preparado para teu tipo de humor, minha filha”.

Declaro abertos os trabalhos! Com amor (real e virtual), Ana Clara.

17 de janeiro de 2012

DRILLS by Fernando Ferreira de Sousa

01 de novembro de 2009: fazia frio, muito frio no porto de Savona às 9 da manhã e eu a posto para embarcar no Costa Concordia. Malas, passaporte, exames médicos e várias esperanças para os próximos 8 meses. Logo nas primeiras horas a bordo, fui bombardeado de informações. Trabalho, uniforme, schedule, cabine e segurança!  Sim, segurança.  Eu havia enfrentado um vôo de 12  horas até Milão,viajado mais 3 em uma van desconfortabilíssima até Savona.

Tinha acabado de embarcar e precisava ficar acordado até às 15 horas para receber as primeiras informações sobre segurança de bordo. Os oficiais de segurança de bordo eram dois italianos grossos que faziam com que 2 minutos de atraso virassem um warning  (3 warnings significam desembarque).  E que às vezes praticavam bullying corretivo com quem ia mal na prova ou não entendia direito o inglês macarrônico deles.

Logo no meu primeiro dia tive a experiência que me tiraria o sono todos os domingos às 17h, horário exato em que o navio partia do porto de Savona. Aí tinha início o drill de passageiros, onde eu mesmo trabalhando todos os dias da meia noite ao meio dia, tinha que acordar no meio do meu sono para realizar junto a todo o resto da tripulação o treinamento geral de segurança de bordo. Sim, esse treinamento geral acontecia apenas 1 vez por semana no porto de Savona. Muitos dos passageiros se recusavam a participar desse exercício.
Eu particularmente ficava muito chocado quando os passageiros se recusavam a participar. Pois fazia parte de um time chamado Tango Hotel (existem vários times responsáveis por vários procedimentos durante a emergência) , que era responsável por retirar em segurança pelas escadas os passageiros portadores de dificuldade de locomoção desde idosos a cadeirantes, esses eram carregados por 4 tripulantes até as áreas de desembarque.

Os passageiros do Costa Concórdia embarcavam todos os dias em todos os portos. E para esses passageiros era dada uma palestra no teatro onde o diretor de cruzeiro explicava a todos os procedimentos de emergência. Posso falar que essa explicação muitas vezes era dada para meia dúzia de passageiros, de centenas que embarcavam, pois a maioria não atendia às solicitações anunciadas exaustivamente nos alto-falantes do navio em seis ou sete línguas.

Não consigo descrever o que sinto quando vejo os passageiros divulgando que a equipe de crew era despreparada para a situação de emergência do Costa Concórdia pois esses mesmos passageiros que reclamam da falta de preparo provavelmente são os mesmos que no momento do treinamento se recusaram a participar ou então levaram isso como atração de férias tirando fotos e pouco se preocupando com o que era dito pela ponte de comando. Além desse treino com os passageiros toda semana, a tripulação fazia a cada 15 dias, geralmente no porto de Marseille, França, uma simulação de emergência geral e abandono do navio.

Perdi as contas de quantas as vezes eu fiquei  sob sol de 35 graus ou sob um frio de 10 graus em pé por uma hora ou mais para que o treinamento saísse perfeito. Nesse treinamento eram checados todos os itens para que em uma situação real de emergência tudo saísse do jeito correto e sincronizado. Eu não estou tentando tirar a culpa do acidente da empresa ou  mesmo dizer que isso não foi um erro humano. Pelo contrário, acredito muito em erro humano. 

Aliás, acho inadmissível um acidente como esse no dias de hoje em um navio tão moderno. Porém, quando dizem que a tripulação não era preparada, eu os defendo como se fôssem parte da minha família. E que mesmo depois de 12 horas exaustivas de trabalho  fariam o possível para ajudar no salvamento dos passageiros. Sinceramente, quando vi na TV na noite de sexta feira 13 o Concórdia afundando e as notícias vazias na internet, fiquei estarrecido e muito triste mas ao contrário do que acontecia na nave naquela noite fria da sexta feira 13 de janeiro, as minhas memórias dos momentos vividos naquele navio emergiam e vinham à tona mais fortes como se tudo tivesse sido vivido ontem com as pessoas que conheci e percebi como esse erro ridículo estragou o momento de muitos outros tripulantes, momento esse vivido com sucesso durante 9 meses por mim há 2 anos atrás na mesma nave.


Fernando Ferreira de Sousa, 23 anos, estudante de Arquitetura, de Campinas - SP. O Fer exerceu bravamente a função de Housekeeping Steward a bordo do Costa Concordia, European season, 2010.

NA FOTO em Barcelona, numa loja de sucos naturais de um argentino que falava português perfeitamente, depois de um passeio de horas no Park Guell, acompanhado desta que o publica, tua amiga e fã de carteitrinha, Ana Tellini.