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24 de janeiro de 2012

17 de janeiro de 2012

DRILLS by Fernando Ferreira de Sousa

01 de novembro de 2009: fazia frio, muito frio no porto de Savona às 9 da manhã e eu a posto para embarcar no Costa Concordia. Malas, passaporte, exames médicos e várias esperanças para os próximos 8 meses. Logo nas primeiras horas a bordo, fui bombardeado de informações. Trabalho, uniforme, schedule, cabine e segurança!  Sim, segurança.  Eu havia enfrentado um vôo de 12  horas até Milão,viajado mais 3 em uma van desconfortabilíssima até Savona.

Tinha acabado de embarcar e precisava ficar acordado até às 15 horas para receber as primeiras informações sobre segurança de bordo. Os oficiais de segurança de bordo eram dois italianos grossos que faziam com que 2 minutos de atraso virassem um warning  (3 warnings significam desembarque).  E que às vezes praticavam bullying corretivo com quem ia mal na prova ou não entendia direito o inglês macarrônico deles.

Logo no meu primeiro dia tive a experiência que me tiraria o sono todos os domingos às 17h, horário exato em que o navio partia do porto de Savona. Aí tinha início o drill de passageiros, onde eu mesmo trabalhando todos os dias da meia noite ao meio dia, tinha que acordar no meio do meu sono para realizar junto a todo o resto da tripulação o treinamento geral de segurança de bordo. Sim, esse treinamento geral acontecia apenas 1 vez por semana no porto de Savona. Muitos dos passageiros se recusavam a participar desse exercício.
Eu particularmente ficava muito chocado quando os passageiros se recusavam a participar. Pois fazia parte de um time chamado Tango Hotel (existem vários times responsáveis por vários procedimentos durante a emergência) , que era responsável por retirar em segurança pelas escadas os passageiros portadores de dificuldade de locomoção desde idosos a cadeirantes, esses eram carregados por 4 tripulantes até as áreas de desembarque.

Os passageiros do Costa Concórdia embarcavam todos os dias em todos os portos. E para esses passageiros era dada uma palestra no teatro onde o diretor de cruzeiro explicava a todos os procedimentos de emergência. Posso falar que essa explicação muitas vezes era dada para meia dúzia de passageiros, de centenas que embarcavam, pois a maioria não atendia às solicitações anunciadas exaustivamente nos alto-falantes do navio em seis ou sete línguas.

Não consigo descrever o que sinto quando vejo os passageiros divulgando que a equipe de crew era despreparada para a situação de emergência do Costa Concórdia pois esses mesmos passageiros que reclamam da falta de preparo provavelmente são os mesmos que no momento do treinamento se recusaram a participar ou então levaram isso como atração de férias tirando fotos e pouco se preocupando com o que era dito pela ponte de comando. Além desse treino com os passageiros toda semana, a tripulação fazia a cada 15 dias, geralmente no porto de Marseille, França, uma simulação de emergência geral e abandono do navio.

Perdi as contas de quantas as vezes eu fiquei  sob sol de 35 graus ou sob um frio de 10 graus em pé por uma hora ou mais para que o treinamento saísse perfeito. Nesse treinamento eram checados todos os itens para que em uma situação real de emergência tudo saísse do jeito correto e sincronizado. Eu não estou tentando tirar a culpa do acidente da empresa ou  mesmo dizer que isso não foi um erro humano. Pelo contrário, acredito muito em erro humano. 

Aliás, acho inadmissível um acidente como esse no dias de hoje em um navio tão moderno. Porém, quando dizem que a tripulação não era preparada, eu os defendo como se fôssem parte da minha família. E que mesmo depois de 12 horas exaustivas de trabalho  fariam o possível para ajudar no salvamento dos passageiros. Sinceramente, quando vi na TV na noite de sexta feira 13 o Concórdia afundando e as notícias vazias na internet, fiquei estarrecido e muito triste mas ao contrário do que acontecia na nave naquela noite fria da sexta feira 13 de janeiro, as minhas memórias dos momentos vividos naquele navio emergiam e vinham à tona mais fortes como se tudo tivesse sido vivido ontem com as pessoas que conheci e percebi como esse erro ridículo estragou o momento de muitos outros tripulantes, momento esse vivido com sucesso durante 9 meses por mim há 2 anos atrás na mesma nave.


Fernando Ferreira de Sousa, 23 anos, estudante de Arquitetura, de Campinas - SP. O Fer exerceu bravamente a função de Housekeeping Steward a bordo do Costa Concordia, European season, 2010.

NA FOTO em Barcelona, numa loja de sucos naturais de um argentino que falava português perfeitamente, depois de um passeio de horas no Park Guell, acompanhado desta que o publica, tua amiga e fã de carteitrinha, Ana Tellini.

16 de janeiro de 2012

Carga horária by Rodrigo Mora

No Brasil a carga horária é de 44 horas semanais, na França é de 36, mas nos Navios da Costa trabalha-se em média 70 horas semanais, sem nenhuma remuneração extra e quem ousar reclamar para o chefe ouve: “If you are not happy, I`ll give your sign off paper”  (quer dizer: se não está feliz te dou o formulário para você pedir demissão).

Assim perdendo muitas vezes até o direito de receber o salário do mês, pois te dizem que pagaram passagem aérea e investiram para o novo tripulante chegar, e em caso de demissão, o trabalhador deve arcar com este ônus.

Cada tripulante para embarcar, desembolsa em média R$2.000,00  entre curso da Marinha, exames e estadia para fazer os cursos da companhia que são ministrados em Santos com estadia e alimentação por conta do candidato.

Ou seja, para quem desembolsa este dinheiro, para começar a trabalhar, muitas vezes já chega endividado, e quando se depara com esta situação de abuso por parte da empresa, vê a demissão como uma derrota ainda maior pelas dívidas contraídas e aceita a condição de trabalho muito diferente do que foi prometido pelo agente e pelo que diz no contrato, que é assinado da seguinte maneira: de 8 a 11 horas de trabalho diárias, sábado 4 horas e domingo livre, sendo o excedente pago em horas extras.

Sei que isto é utopia para quem conhece o mundo dos navios , mas é isto que está assinado em contrato e não é cumprido. Acredito que no patamar em que o Brasil está chegando, de nação de respeito, desenvolvida e rica, este tipo de atitude se assemelha com a das confecções que contratam bolivianos sem direito algum para trabalharem trancados muitas horas por dia e recebem por isso muito pouco.
Podem dizer que os tripulantes ganham bem e por isso se sujeitam a isso... Mentira.

Os salários de hoje estão em média de US$ 800 por mês, sem direito a férias, horas extras, recisão em caso de demissão...

A hora é de as autoridades competentes olharem um pouco para este lado do turismo, que vem crescendo a passos largos em nosso país, devido à enorme crise que afeta os europeus, ao forte mercado brasileiro, e também à exposição de nosso país na mídia que atrai cada vez mais navios para virem buscar clientes aqui em nossas águas.

Estamos falando também de uma situação em que estas empresas de navios tiram turistas e empregos dos nossos hotéis e resorts, assim gerando menos emprego e renda nas regiões turísticas do país.
Deveria ser seguido o exemplo dos Estados Unidos, onde existem leis muito rigorosas em relação à segurança da embarcação, normas sanitárias e condições de trabalho da tripulação, para assim quem sabe em 2014 e 2016 possamos fazer um bom trabalho e deixarmos um legado de respeito e tranqüilidade tanto para turistas e trabalhadores envolvidos com os turistas que já temos e os que ainda estão por vir.

RODRIGO MORA (Photographer)

O mundo dos Navios de Cruzeiros... Nem tudo é como parece... by Rodrigo Mora

Esta semana vimos em tempo real um acidente que poderia ser lembrado como o do Titanic, não fosse pela proximidade da costa Italiana (Ilha Giglio), devido ao despreparo dos tripulantes, ao projeto mal feito do Navio, em que os “Tenders” que são os botes salva-vidas, não foram içados como deveria e a um Comandante incompetente e irresponsável.

A Costa Cruzeiros, que é a proprietária do Navio, é protagonista de mais um acidente, que deixa vítima fatal como o ocorrido em 2010 com o Costa Europa, e mais uma vez  peca pela negligência, e desrespeito total aos seus tripulantes e hóspedes.
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No acidente anterior em 2010, que foi pouco divulgado aqui no Brasil, morreram três tripulantes que dormiam na cabine, sendo um deles brasileiro, quando o Navio bateu no pier durante o atracamento no porto de Sharm El Sheik, no Egito.

Neste acidente, todos foram obrigados a desembarcar, muitos deles deixando tudo para trás e a empresa pagou a cada tripulante a indenização de 500 euros por tripulante por todas as perdas.
No acidente desta semana, presenciamos um Comandante preso por negligência e homicídio culposo, e a Costa Cruzeiros coloca toda a responsabilidade no Comandante, como é de praxe na empresa, isentar-se de responsabilidades.

Aliás, isentar-se de responsabilidades parece ser costumeiro nesta empresa, que este ano está com diversos Navios aqui no Brasil, incluindo os navios da Ibero Cruzeiros, que também pertencem à Costa Cruzeiros.


Rodrigo Mora é fotógrafo, 36 anos, natural de São Paulo - SP e reside em Florianópolis - SC.