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28 de agosto de 2010

21/08/10 MARSEILLE: 6 meses a bordo

Pra comemorar meio ano embarcada na navio que tem a fama de ser o mais infernal da Costa, resolvi gastar 15 euros pra fazer um passeio que queria fazer há muito tempo.

Peguei um barco no porto e fui pro PORT FRIOUL, uma das tantas ilhas que cercam Marseille. Pela primeira vez eu sai na primeira gangway em Marseille, sempre ficava dormindo, mas agora eu tenho alguém que precisa conversar até a hora de trabalhar....

Então eu saí bem faceira às 8h da manhã pra respirar o ar fresco da França acordando, o ventinho leve e o sol que venho vindo timidamente até explodir lá em cima... E eu fiz minha ESTRÉIA NO MAR FRANCÊS, um mar gelado, que me deu a impressão de ter trocado de sangue...

NON SENTIRAI SOLO IL MARE: com o Tim Italia que meu amigo Fefèèè me deu eu escuto as rádios locais de toda Europa...


indo pra ilha PORT FRIOUL...


passamos por outra ilha, Château d'If


vi coisas que há tempos não via


coisas vivas e livres


achei um esconderijo


fiquei brincando sozinha


sempre na ótima cia do mar





fui passear beeeem longe da turistada



tomei meu banho de mar



montei no cavalo e fui me embora...



social no crew bar à noite...
Colombia, Republica Dominicana, Brasil e Guatemala
aiaiai

24 de agosto de 2010

19/08/10 Palma de Mallorca: CALA MALLOR

EU SOU FORMADA EM FOTOGRAFIA PORRA
Mas a Chiara quase me quebra as pernas com um treinamento que ela inventou pras 14h, na hora que a gente atraca, na hora que eu tava com tudo combinado pra voar pra praia. Graças a confusão que é esse navio, às 15h ela teve que nos liberar pro povo novo usar a sala...

E FOMOS A LA PLAYAAA

pintinhas, adooooro






ele não fuma sempre, mas quando toma san martin...


apareceu nosso amigo peruano pra cobrar as cadeiras do hotel, mas somos sul americanos, a gente se entende... pra não dizer mafiosos trambiqueiros...

e eu que andava precisando de uma mãozinha...



arrumei um grandão de 1,91 que calça 45 e as maiores mãos que eu já vi...

17/08/10 PALERMO

EUROPEAN STYLE
A Chiara é grande amiga da gorda bastarda, que agora chamamos de Miss Concordia também. A véia loca resolveu botar ordem no galinheiro do photo shop, agora todo mundo de cabelinho preso, estilo trabalhadores da cozinha, inventou a moda do lencinho e a camisa que as hostess e as gurias da excursão usam. Não se pode mais usar cores escuras nas unhas e que não botar maquiagem, apanha.

e é quente



e apertado



FUNCIONÁRIA PADRÃO

mas há quem diga que eu fiquei ainda mais hermossa de uniforme novo!

23 de agosto de 2010

15/08/10 SAVONA

L’AMOUR
Quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa bem namorativa, não tem coisa que eu ache mais linda que se apaixonar, do que quebrar a cara e começar de novo. Por isso eu cago e ando pra gente que fala que a gente veio aqui pra trabalhar, que não vamos fazer amigos nem aprender coisas novas. Eu sinto um prazer enorme em bancar a cúpida e aproximar fofinhos como Shirlinha e o Juninho, que seguem juntos, num namoro via telefone. E eu burlei o sistema do meu departamento pra imprimir fotos pra Julia dar pro Mathias; ele estava indo embora, eles se conheceram aqui e eu acho mágico um gaúcho e uma carioca se apaixonarem num navio italiano. E EU NUNCA VOU ESQUECER a primeira cena de amor que eu vi a bordo, no meu primeiro dia, ainda atracada no Rio de Janeiro: um garçom e uma garçonete naquela brata voando com pratos da cozinha pro restaurante, e mesmo com a pressa e mais umas 10 pessoas voando com eles, num ballet incrível eles se deram um beijo e seguiram pra lados opostos. A Rosi e a Gui também tiveram um empurranzinho meu e seguem juntas, felizes. Eu acredito no amor, neste que pode durar semanas, meses, um contrato ou a vida toda. Acho que vale a pena se apaixonar, aqui ou em qualquer lugar do mundo.

Pedrinho e Juninho, meus fofos que trabalham no crew mass


hoje a Tati, minha futura cabinmate, completou 31 anos e eu fui dar um abraço nela


por falar em amor... o cleaner brasileiro e a dançarina inglesa formam um casal lindo de gigantes

E nós ficamos até às 4 da manhã ouvindo música, compartilhando nossos mundos de países e amores diferentes, de passados e futuros cheios de vontades em comum. E quando já não tinha mais assunto nos rendemos pros beijos que duraram até a hora de ele trabalhar, às 7 da manhã. Foi DELICIOSO encontrar alguém que me diz, sem medo nem vergonha: TU ERES UNA MUJER MARAVIJOSA. GRACIAS POR TODO. Ele que sempre me achou incrível, que nunca teve medo de demonstrar, que diz que eu sou UNA MUJER DIVERSA, QUE LO ENCANTA. E eu sou mesmo e estou feliz de ter encontrado o Willian Rincon (nametag) que é Willian Fernando, que me chama de Nena e me dedica músicas assim...

14/08/10 MARSEILLE

O drill tava bonito hoje com a chuva e o vento que fazia. Eu e o cantor Ramón, da Republica Dominicana, nunca deixamos o drill nos matar de tédio. A gente fica conversando em inglês, español, português sobre alegrias e tristezas, mas o que a gente mais gosta é de analisar os bofes e trocar figurinha sobre quem está pegando quem.  E pra quem nos encomoda, já ensinei pra ele... DON’T BREAK MY BALLS!!!

NIVER BELA
Fui ao Seamen’s Club, no terminal de Marseille, falar com minha mana de aniver... É o único lugar do giro que oferece um serviço solidário pro crew member. A internet é de graça, e não funciona né, eles têm sinuca, fotos nossas pelas paredes, e tu pode fazer teu nissin e comer lá mesmo. O negão francês me ajudou a falar com minha mãe e minha irmã, eles emprestam o telefone local deles pra gente, desta forma o cartão de 5 euros dura mais. Eles nos tratam com educação e gentileza, e é por isso que eu AINDA acredito: É POSSÍVEL encontrar gentileza, boa vontade, amor, amizade no meio dessa pressão mental, desta dor insuportável nas costas...

IRMÃ: FELIZ ANIVERSÁRIO, OBRIGADA POR TODA FORÇA E APOIO. TE AMO.

UMA CHANCE
Depois da festa peruana o que não me faltam são pretês latinos por aí, tem um tentando me conquistar com chocolates, fofo. Mas eu resolvi dar uma chance de conhecer um cara que há meses me convida pra tomar um vinho, que há meses patrocina o vinho das despedidas malucas que eu invento. Um gigante que trabalha no Roma, que sempre dizia que queria uma foto comigo, e eu fiz meu colega tirar uma foto nossa e dei pra ele impressa, e ele ficou com cara de bobo... E eu descobri que esse colombiano com cara de bonzinho tem 31 anos, trabalha há seis anos na Costa, está fazendo seu ultimo contrato e de bonzinho ele não tem nada, pelo contrário, é sagaz e BEEEM inteligente. Ele é escorpiano, jornalista, fala espanhol despassito, está querendo aprender português, já foi pra vários lugares que eu ainda quero ir e é cinéfilo... que nem eu. A gente ficou conversando madrugada adentro e amanhã vamos trocar músicas e filmes depois do trabalho.

mais um FERNANDO na minha vida.

13/08/10 BARCELONA: reflexãããs sobre nacionalidades

EUROPEANS AND NON EUROPEANS
Os europeus geralmente ocupam cargos melhores, ou seja, que pagam melhor. Não existe UM italiano que seja crew member, só staff member ou cargos de chefia. Os europeus têm contrato de cinco meses e os não europeus de oito meses. Eles recebem uma taxa de incentivo maior do que nós, não europeus, mesmo que ocupem a mesma função. Os europeus conseguem medical off por crise de choro e gastrite nervosa, e nós temos que agüentar os enfermeiros rindo da  nossa cara mesmo que a gente busque ajuda médica por motivos reais. E é por essas e por outras que eu tenho comido no crew mass, porque lá está minha gente, que fica oito meses a bordo enquanto eles embarcam e desembarcam duas, três vezes durante nosso contrato – porque eles podem desembarcar pra resolver um problema familiar e voltar em uma semana ou um mês, eles escolhem. E a gente? A gente fica feliz de ir na festa e de “roubar” comida de passageiro, aquela que sobra, aquela que vai pro lixo.

LATINOS, SUL AMERICANOS E O RESTO DO MUNDO
Depois da festa peruana ficou muito claro pra mim que a gente tem um fogo no rabo sim. Os filipinos vão comprar casa no fim do contrato, por isso deve ser mais fácil pra eles trabalhar e dormir todos os dias, sem passeio, sem festa, sem nenhum tipo de vida pessoal. E eu acho ótimo que a gente ferva na pista, que a gente saia pra passear nem que seja por uma hora, que a gente se apaixone e acredite que a vida pode ser melhor.

12/08/10 PALMA DE MALLORCA

Hoje eu fui no Carrefour fazer as últimas compras do meu contrato. Estoquei as coisas mais importantes que preciso pra viver nos próximos 2 meses e meio. Não consegui acessar a internet do Bacaro, e agora eu já não tenho mais um colapso quando não consigo fazer as coisas que me planejo pra fazer. Porque não vale a pena, porque eu já sei que o sinal é sempre uma merda em muito lugares que vamos, porque estamos sempre juntos – nós, os crew members.

Vitinho e Ricardinho, meus paisanos que trabalham no bar do navio, pagaram uma cervejinha pra mim antes da gente voltar.

No meu momento vivendo a vida sem ataque cardíaco, algumas novidades e várias reflexões. Eu me afastei completamente de QUALQUER UM que estiver pra morrer. Sou intensa demais pra viver perto de pessoas que já não enxergam mais a beleza da vida, por mais que eu goste delas. Assim encontrei paz de espírito, mas não conta pra ninguém, porque neste navio pelo menos o teu chefe tem que achar que tu estás a beira de um ataque de nervos.

E eu percebi a desgraça que se abateu no meu departamento é resultado de dois motivos: o sistema burocrático e o sistema psicológico.

O SISTEMA BUROCRÁTICO DO NAVIO E O SISTEMA CAPITALISTA DO MUNDO
A hotel director caga na cabeça da administrative director, que caga na cabeça do meu gerente, o Peppe. Ele já não é mais o mesmo há muito tempo e eu já não dou bom dia quando ele não olha pra minha cara. Agora a gente abre a loja mais cedo e fecha mais tarde. Motivo: talvez desta forma a gente atinja o target. Coloca um bando de gente jovem pra não fazer nada por duas horas durante as primeiras e as últimas horas do dia... É só reclamação. E dói mesmo, as costas, a cabeça, os pés – mas o fundo real da dor é sempre psicológico, em qualquer departamento. Eu tento me afastar de gente que reclama demais, mas a vida dos fotógrafos anda dura, e a gente faz terapia em grupo.

Todos outros cargos invejam a posição de fotógrafo: sem port maning, tempo pra passear, e aquelas outras facilidades da vida de staff. Qual é o nosso problema então? Porque NINGUÉM está feliz no meu departamento – não sei se é uma pergunta ou uma resposta.

O problema é que está merda que vem sendo cagada lá de cima termina sempre no mais fraco, no caso, os fotógrafos. Então é a gente que não sorri, a gente que não se esforça pra vender mais, a gente que é julgado pela nacionalidade... Mas a verdade é que com seus defeitos e qualidades pessoais e profissionais, todo mundo trabalha bem na Photo, no meu ponto de vista. Todo mundo faz o que pode pra fazer fotos melhores e vender mais. Só que isso não é o suficiente. E não é nossa culpa que nosso giro é barato, que nossos passageiros acham um absurdo o preço das fotos, e é mesmo, e ninguém abre a mão pra criar pacotes que possam pelo menos fazer parecer que existe alguma vantagem pro passageiro.

Só que o sistema sempre foi burro, aqui e em qualquer lugar, os trabalhadores sempre se deixaram ser oprimidos. Mas o sistema ainda é capitalista e é preciso ganhar dinheiro pra ser feliz – eu sei que felicidade não se compra, mas a felicidade vem da onde? De comer fora do navio, do passeio que envolve transporte, do vestido, celular, Iphone ou qualquer outra besteira que faça a vida dura de bordo valer a pena... do mojito na praia que só obtemos com dinheiro.

O SISTEMA PSICOLÓGICO
O Morcego e a Vampira não são más pessoas, e mesmo assim quase ninguém gosta deles pessoalmente no departamento e no navio. Ele pediu pra ser estendido um mês pra terminar o contrato com a namorada, o que ele ganhou? Vai desembarcar um mês antes do término normal do contrato pra embarcar no Serena – que vai pro Brasil. E ela, que já tem experiência de vida a bordo, sabe que vai tomar guampa feito louca, porque a vida de navio já é uma putaria, mas é no Brasil que os europeus liberam suas fantasias... Inclusive sexuais.

Claro que eu não tenho nada a ver com isso, mas a única pessoa que quebra minhas pernas todo dia neste navio é o Morcegão. Então eu quero mais é que ele sofra mesmo.

Eu, a Tati e a Michele estamos nos reaproximando, porque no fim das contas, a batata fica mais quente pra quem é brasileiro. Nós somos muito diferentes, mas nenhuma de nós é de má índole. E eu e a Tati, que tanto já brigamos e falamos mal uma da outra, estamos nos dando uma outra chance, de novo.

17 de agosto de 2010

11/08/10 TUNIS: EU SOU BRASILEIRA E NÃO DESISTO NUNCA!

Agora eu amo a foto camelo, que começa às 11h30. Dormi bem, finalmente me recuperei do porre, passei duas horas embaixo do sol africano e fiz 150 fotos.

Estou procurando o balanço entre não ser hipócrita e não me revoltar. Eu gostaria muito de fazer o que o Duilio falou e fazer um blog mais jornalístico. Mas eu me dei conta de que se eu andar com uma câmera no bolso esperando a hora de um oficial cagar na minha cabeça pra eu filmar, eu vou ficar louca.

Eu quis vir pra cá, eu sabia que ia trabalhar feito um cavalo, sabia que ia encontrar gente de tudo que é raça e um monte de italianos que acha que brasileiro é carnaval. Mas eu ando observando as coisas e as pessoas, e eu me recuso a colocar tudo num balde, um balde cheio de merda, como muitas pessoas fazem. Eu gosto da vida a bordo, é preciso ser completamente insano pra estar aqui. Nunca fui bem normal, não quero fingir que a vida é um paraíso, mas eu tenho motivos pra ficar, e é neles que eu me apego.

- EU MORO SOZINHA e não ter cabinmate é o sonho de qualquer tripulante

- EU TENHO UM CLEANER que limpa minha cabine todo dia, troca as toalhas e arruma minha cama

- EU COMO DE GRAÇA uma comida u ó, mas a comida do staff mess ainda é MUITO melhor que a do crew mass

- EU SOU FOTÓGRAFA e mesmo fazendo as fotinhos de merda do navio eu posso sair e fazer o que gosto

- EU TENHO TEMPO pra sair e visitar as coisas, um luxo que a maioria dos meus amigos não têm

- EU TENHO AMIGOS, os de verdade e os conhecidos, em TODOS os departamentos

E SIM, É MUITO MAIS DIVERTIDO CONTAR A VIDA POR BARCELONAS DO QUE POR SEXTAS...

E É POR ISSO
Que eu quero ir pro Fortuna, trabalhar com o Sérgio, fazer over night em Buenos Aires e seguir pro Norte da Europa. Tenho certeza de que meu amigo vai ficar orgulhoso de ver como eu melhorei como atriz no trabalho, como eu sei fazer a foto no padrão europeu, como eu parei de reclamar do cansaço e do trabalho duro.

E essa Cia ainda vai me levar em muitos lugares, e o melhor, vai me pagar pra isso. Foi nesse espírito que eu encarei a noite de gala soberana, e a Chiara disse TU ANDAVA BENNE AL RISTORANTE, e as minhas fotos continuam sem foco, mas eu faço meu melhor.

FESTA PERUANA – DECK 9, PISCINA DE PASSAGEIRO

PAUL, o único australiano a bordo. me chama de GOSTOSSA


a Cris também é da zona sul de Porto Alegre. ela deu aula no Cultural 9 anos, e eu... um semestre. e a gente se encontrou aqui... adooooro


eu e SÓ CURITIBANOS



o homem que sabe tudo da minha vida, DERYL, meu cleaner!


E VIVA AO PERU, DANCEI MUIIIIIITO



LA PICOLINA, uma grande mulher.

09 e 10/08/10 NAPOLI, PALERMO

O que eu escrevi ultimamente, a depressão, foi no fim do trabalho de hoje. Quando vi no programa que não tinha que acordar cedo, fui pro crew bar reclamar da vida com uns conhecidos. Comprei uma garrafa de vinho e fiquei até às 5 da manhã sentada no banheiro escrevendo e chorando. Esse navio vai afundar de tanta lágrima. Mas aqui pai de família chora, e eu, que sou beeeem passional, choro como arroz.

10/8 PALERMO – DIA DO FICO
Acordei em crise, ainda bêbada, pra receber meu salário. Todo mundo sabe que recebi 150 euros, agora vou explicar porquê. Meu salário base é 775, daí descontam 100 do crew pass, 20 do “auxílio” médico e mais 120 que é tipo uma poupança ou garantia. Se eu terminar meu contrato eles me devolvem todo dinheiro, se eu quebrar o contrato eles usam o dinheiro pra me despachar pro Brasil. Como eu tive que dar um talagasso grande pra começar a pagar meu cartão, pedi um adianto de 460 euros. Sobrou essa mixaria.
Revoltadíssima, fui pra internet decidida a ir me embora de qualquer jeito. Liguei pra minha mãe e nós falamos mais de uma hora. Tudo o que eu queria ouvir era “volta pra casa filhinha”, mas ela me disse o que eu precisava ouvir. A vida tá difícil pra todo mundo em qualquer lugar, e embora num navio tudo seja elevado a milésima potência, eu tenho um emprego, moro num navio de luxo, e sim, estou ganhando mais do que no Brasil e até o fim do meu contrato eu vou ter uma graninha pra mim.

Fazia muito tempo que eu não dizia eu te amo pra minha mãe, e eu resolvi não deixar pra amanhã – até porque o amanhã é na Tunisia... pra mim. Eu amo minha mãe, com todas nossas diferenças, com todas as revoltas da adolescência. Só que eu não sou mais adolê nem minha mãe está em menopausa. E eu resolvi aceitar ela como ela é, e lembrei das palavras do meu sábio pai... “Tu tem que dar uma chance pra tua mãe, um dia vocês vão precisar uma da outra”. Ele também me lembrou muitas vezes de como ela teve uma vida difícil, de como ela era inteligente e que ela tinha um dos melhores textos do Estado. Ele dizia que eu era uma privilegiada de nascer numa casa onde tinham 5 jornais pra ler, e que eu não era talentosa pra escrever só por ter pais jornalistas ou só por ter incentivo pra ler, que me era um dom natural e eu ia usar isso uma hora.

Quem não me conhece pessoalmente, ou quem não conheceu meu pai, já deve estar cansado de todo esse momento coração. Mas quem conheceu ele sabe que ele tinha o maior coração do mundo, sabe o quanto ele era importante pra mim, e sabe como o meu mundo caiu quando ele morreu de uma hora pra outra e eu morava em Salvador.

Então ao invés de me deprimir, resolvi lembrar das coisas que ninguém sabe, e assim encontrei a força pra ficar aqui. Na última vez que o vi, quando ele foi me visitar na Bahia, ele me disse, entre outras coisas...

“Tu vai fazer coisas que nenhuma das tuas irmãs vai fazer. Agora tu está em Salvador, mas isso é só um começo. Tu vai ir pra Europa, vai conhecer o mundo”. Ele também me chamava de professorinha muito antes de eu começar a dar aula de inglês... E é por essas e por outras que eu não tenho vergonha nenhuma de dizer: eu ainda converso com meu pai, sei que ele vive em mim. Eu vou pro mar e peço força pra ele, porque o último banho de mar dele foi comigo, na Praia do Forte. Eu sei que ele está vendo minha luta e o meu esforço pra fazer as coisas que eu sempre quis fazer: viajar, conhecer pessoas, fotografar, falar inglês todo dia. E quando eu chego em Barcelona, já sem esperanças nessa vida de trabalho, e começo a ver placas PAI em todos os lugares, eu renovo minha fé. A fé que eu tenho em mim mesma, a fé em Deus que eu TINHA perdido quando ele morreu.

E eu fiquei feliz de ter chegado tão longe pra perceber o quanto minha mãe é importante pra mim, que minhas irmãs são muito mais que meninas super poderosas, que Deus mandou o Bernardo pras nossas vidas pra gente não perder a vontade de viver sem o pai. E eu digo pra todo mundo que acha minhas estrelas lindas...

UMA ESTRELA PRA CADA UM DA MINHA FAMÍLIA: PAI, MÃE, MINHAS QUATRO IRMÃS E EU.

Eu estou chorando sim, de orgulho de fazer parte de um clã de mulheres guerreiras, e se alguma de vocês estiver aí, quero que saibam:


MÃE, GRAÇA, ANA, BELA, INÊS: EU AMO MUITO TODAS VOCÊS.

10 de agosto de 2010

09/09/10 NAPOLI

Tinha combinado com o Marco da gente trovar na minha cabine, to pensando seriamente em ir me embora, de qualquer jeito. Sempre em mente o que o Fefé me falou: agüenta duas Barcelonas, daí tu vê se pode terminar o contrato ou não. O que eu não podia esperar...

JUVENTUDE TRANSVIADA???
Era que ele fosse na minha cabine muito mais estressado que eu. A gente anda tão louco que nem fala mais sobre os problemas. É SÓ... How are you doing? Shit. You? The same. I think I’m gonna quit. You? I think I’m gonna have a heart attack. Não importa a ordem, é sempre um ou o outro. Ele veio com o cabo da câmera, eu baixei as fotos em silencio. Ele, como sempre, me disse a verdade: You came here to work, you don’t have to be creative. You’ve been here for 6 months, you know what to do. Ele bateu a cabeça na cama, xingou ela em italiano, quando o telephone tocou ele disse I’m sorry e bateu a porta. Eu disse em alto e bom som (agora eu falo sozinha)... NO, I REALLY DON’T NEED HIM IN MY LIFE.

EM MENOS DE MEIA HORA
Ele voltou e me deu o maior susto da minha vida. LET ME GO IN, I CAN’T BREATH. Eu já estava conformada organizando as fotos no computador, conformada de que tenho que terminar o contrato e de que eu não tenho namorado. Quando eu vi ele respirando como meu pai em crise de asma, já sabia o que fazer. Deitei ele na minha cama, apaguei a luz, fiquei em pé pensando no que fazer. Esperei ele se acalmar um pouco, ainda em pé, fingindo não estar apavorada. Pensei na Rosi, no Sergio, na Gi, no Boy, no Jimmy, no meu pai, no que eu faria por eles. Tirei o tênis dele, desamarrei a desgraça do celular da cintura dele. Era o máximo que eu podia fazer, sempre pensando: ainda bem que eu não vi meu pai morrer.
Voltei ao computador pra ele não ver minha cara. Quando vi que ele respirava normalmente, falei pra ele ir embora pra casa. Que ele precisa ser honesto consigo mesmo, e já que ele precisa do dinheiro, inventar um medical off como todo mundo. Ele saiu pra respirar não sei onde, tava de port manning, não podia nem passar da gangway.
Voltou pra pegar o celular que tinha esquecido e eu me dei conta de que estamos juntos, sem sexo, sem beijo na boca, sem romance. De quanto a gente precisa um do outro, de quanto a gente se conhece, de quanto eu não me importo sobre o futuro. Só quero que ele viva e que a gente seja amigos pra sempre, sempre, nem que seja por facebook .

E EU FIQUEI COM MEDO
De perder ele pro navio, de que ele morresse jovem ou ficasse tão doente que não pudesse ser feliz nunca mais. Realizei que talvez eu nunca mais possa conviver em sociedade normalmente, e comecei a me perguntar porque toda essa juventude está a bordo. Me respondi muitas vezes, mas não consegui chorar, e isso me deu mais medo ainda.

MAS EU DORMI
Com medo de não acordar, acordei pra trabalhar, pra ouvir a Chiara falar como queria a foto da mesa, como se eu me importasse. Dividi com a Babyface o meu pavor, e a gente combinou de ir à praia juntas amanhã. Fui bravamente ao restaurante, simpática e profissional, a Chiara não teve do que reclamar, mesmo eu usando novamente a câmera mais velha da Cia. E quando eu voltei me perguntei como eu podia estar triste, estressada, inconformada e ainda ser brava. Me respondi: eu foi capaz de separar camisa a camisa do meu pai pra doar pra asilo, de esvaziar uma casa e uma vida aos 23 anos. De doar meu cachorro pra uma vida melhor, minha tartaruga pra uma criança mais feliz. Eu fui capaz de me rebaixar e fazer coisas que eu nunca fiz na minha vida, como morar com uma prostituta.

ORGULHO
Então fui ao banheiro e derramei cinco lágrimas pelo meu pai, pelo caminho que eu estou trilhando, pelo meu amigo que sempre me apoioue eu não sei direito o que fazer por ele, pela tristeza, pelo dia dos pais, por mim, que não sou idiota e sei que estou sendo explorada.

GRANDEZA
E depois que eu percebi que o Marco precisava mais de mim do que eu dele, que eu me dei conta que eu tenho um coração enorme. Na minha pausa de dez minutos fui no Office dele, ele não tava, deixei a chave da minha cabine e um bilhete mais ou menos assim... Quando tu precisares de um banheiro, uma cama, ou de estar sozinho, podes usar minha cabine. Mesmo não estando juntos como homem e mulher, me preocupo contigo. Por ai foi até... You can count on me. Don’t forget, you’re not alone. E saí de lá com a musica na cabeça: YOU’RE NOT ALONE, I’LL WAIT ‘TILL THE END TO BE WITH YOU.

MAS A MUSICA DO DIA é aquela que já me fazia chorar antes do meu velho morrer


Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção pra você viver mais
Deixei que tudo desaparecesse
Perto do fim
Não pude mais encontrar
O amor ainda estava lá
O AMOR AINDA ESTAVA LÁ

MIA CULPA
Queria estar lá pra tirar o tênis do meu gordo, do homem que sabia que sabia que eu chorava com a cara enfiada no travesseiro, pra ninguém saber que eu sofria. Daquele foi e sempre será o único. Aquele pelo qual a vida não vale a pena sem, o qual eu vou chorar de saudade pelo resto da minha vida...

08/08/10 SAVONA + GENOVA + HELL

Buenas que eu já tinha prenotado a excursão pra Genova, no dia que a chefona de Genova vinha a bordo pra minha cabine. Eu não ia mais, mas daí pensei que talvez no próximo domingo eu vá embora, e que depois de conhecer ela provavelmente eu não queira mais pisar meus pés em Genova.
Por isso eu fui, fui com tudo. Com todas as coisas que o Marco me falou sobre a cidade dele, com a idéia de chegar mais perto das minhas raízes, já que Genova é o mais próximo que eu consigo chegar de Veneto. A fortuna foi conhecer a ragazza que trabalha na excursão, Anna de Napoli, e nós dividimos a desgraça de não ter privacidade. Ela é formada em Política e Cultura, pagou meu focaccio, ouviu minha estória com o genoveso...

as luzes do caminho


chegando em Genova














indo pegar o elevador que leva pra aquela vista panorâmica das fotos






Centro histórico


pertinho da casa do Cristóvão Colombo












focaccio


JESUS ME CHICOTEIA
A cada metro da estrada Abissola, eu ouvia o Marco falando da terra dele, da história da minha família de Veneto. E me dei conta da falta que ele me faz, da saudade que eu tenho dos planos que a gente fazia de alugar um carro pra ele me mostrar Genova. E eu me dei conta de como ele é importante pra mim, como homem e como amigo, e eu não sei porque terminei com ele.

HELL
E eu voltei pro inferno. O Morcego já me esperava na gangway pra pedir o “favor” de eu mudar pra cama de cima, já que a Chiara achava mais confortável ficar embaixo. Botei uniforme EM 5 MINUTOS, dei ciao pro Jonas e fui pro meu side job, que foi mais infernal do que o de costume. O sistema caiu e, eu que ficava sentada no computador, fiquei em pé botando cerca de dois mil papéis em ordem por cabine. Tive que ouvir a bastarda obesa dizer que eu era sleepy head em italiano. Ela me fez subir numa cabine de passageiro pra ver se ele tinha desembarcado ou não, e se não fosse pelo curitibano abrir a porta pra mim, eu teria andado 20 minutos em vão. Ele abriu a cabine, que só tinha malas, e eu voltei com o rabo entre as pernas, como sempre, pra dizer o que eu vi. Quando eu falava em italiano ela comentava com os outros como eu era inútil em italiano, daí virava pra mim em italiano e traduzia pra inglês, como se ela não soubesse que eu to cansada de entender italiano.

Como já dizia MV BILL... PÁRA DE CAÔ, se seu coração tá cheio de ódio não me venha pra falar de amor... PÁRA DE CAÔ, somente quem ficou acordado é que sabe o gosto da dor... É tipo assim, não vem me oferecer o que não é bom pra mim... Não sabe se é playboy, não sabe se é favela, decide pra qual santo tu acende tua vela... PÁRA DE CAÔ, recriminar o credo de alguém é tão grave quanto renegar a cor... PÁRA DE CAÔ. Mentindo pra mim mesma, todo dia.

CHIARA
Apareceu na minha cabine depois deu ter desperdiçado meia hora da minha pausa pra trocar de cama, pegou as malas, falou inglês bizarro, saiu sem nem dizer que ia pra cabine de passageiro. E eu ainda tenho que ficar bem feliz de AINDA estar sozinha na cabine. Saí por aí berrando CORAGIII, dando soco nas paredes e pensando em ir embora. Não sinto saudades do Brasil, mas sim de ser respeitada.

CINCO MINUTOS = VINTE EUROS
Ainda na porra da pausa, liguei pra casa da minha mãe, durante o drill, na crew beach. Tinha pouco tempo pra falar antes que algum oficial viesse dizer que eu não podia estar ali. Ninguém atendeu, liguei pro cel da Inês, que me disse que tinha acontecido um problema. Nem perguntei o que era porque tinha medo da minha reação, a gente já estava navegando e eu não ia ter tempo de meter minha mala pela gangway. Só pensei na Graça, mas me concentrei em falar cinco minutos com o Ber. Voltei pra minha cabine revoltada, não sei mais chorar.

07/08/10 MARSEILLE

RESSACA
Me acordei 9h30 de cara que eu podia dormir mais e não conseguia. Às 10h o homem do drill parcial não me deixava dormir, e eu fiquei zanzando, ainda bêbada, pelo navio até o sono vir. Queria falar com o Vinicius, que ainda não tinha voltado do trabalho, daí falei com a Gi até meu crédito acabar. Sentada no banco em frente à gangway, sem dinheiro nem pra comer um Mc Donalds e usar internet. Dormi mais um pouco e fui trabalhar.

MEETING
As felizes noticias
- Chiara vem a bordo amanhã pra quebrar as pernas de todo mundo, trata-se apenas da mulher responsável pelo departamento de fotografia de todos os navios
- Ela vai ficar na minha cabine
- Fiquei até duas da manhã arrumando a cabine pra chegada da mulher que pode me dar o training de printer.

** Já pedi pro Morcego o training, ele disse que eu não vim a bordo pra aprender nada, que eu só tinha que aprender meu trabalho e fazer ele até o fim do contrato.

Já o Hristo (printer) me disse que eu pedi pra pessoa errada, que o Ciprian não é ninguém pra me dizer o que fazer. Não preciso nem dizer em quem eu prefiro acreditar.

06/08/10 BARCELONA

Graças a Deus ou ao meu juízo, acordei bem. Fui ao medico, que delicadamente me perguntou se eu tinha condições de trabalhar. Fui trabalhar, outra noite de gala. O que eu ganhei? Card registration pra aprender a deixar de ser fresca e trabalhar mesmo donte.

SAUDÁVEL?
Se eu tenho saúde pra trabalhar doente, tenho que ter pra passear também. Ando numa corrida contra o tempo, sei que tudo vai acabar em breve. Muito européia que sou, peguei o subway sozinha pra ver LA PEDRERA e CASA BATLÓ, e como sempre, não tive dinheiro pra entrar e ver as exposições. E mais uma vez me dei conta de que não estou adquirindo nenhuma cultura, mas mesmo assim me contentei em botar os olhos nas obras do Gaudí. Isso tudo graças aos 8 bilhetes de trem que Fefè deixou pra mim, eu não tinha um euro, nem prum copo d’água. Entre uma casa e outra eu andava por lojas como Channel, Gucci, Bvlgari, Guess, Desigual em liquidação e tantas outras que chamavam os turistas pelo perfume e ar condicionado. Não, eu não sou consumista, graças ao meu pai. Mas sim, eu gostaria de comprar souvenir dos lugares, ou apenas livros sobre arte.










LA PEDRERA



não sei se gosto mais da porta ou do lustre



adoro passear com meus amigos, mas é sozinha que organizo minhas ideias



fiz muitas fotos de detalhes, mas quero mostrar os prédios pra vocês



essa é a vizinha da casa Battló



e essa é a CASA BATTLÓ


as janelas da vida






encontrei essa fundação no caminho de volta, amazing



o velho e o novo se encontram em barcelona

NOITE
Eu e Babyface resolvemos tomar um porre pra esquecer que ela não deu certo com o brasileiro nem eu com o italiano. Deu certo, mas fui à cabine do Marco pegar TODO equipamento digital dele, porque hoje saí só com a tele. Me dei conta de que a gente se gosta de verdade, por mais que nenhum dos dois admita.